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sábado, 31 de janeiro de 2015

Operar por vaidade?

Ás vezes ouço depoimentos de gastroplastizados focando única e exclusivamente na vaidade... e muitas vezes me perguntam sobre a cirurgia focando nesse aspecto... E eu muitas vezes me pergunto: somente por vaidade vale a pena?
Não, definitivamente não vale a pena focar na vaidade, ela é secundária, vem e vai...  mas o foco principal sempre deve ater-se a saúde.
Porque saúde não engloba somente o corpo, mas a alma...
Quando operei estava com 110kg, (108,3 no dia da cirurgia). Mas além desse peso eu carregava uma lista de medicamentos: dois Ablok Plus, uma metiodopa, fluxetina, amitriptilina, rivotril e inúmeros analgésicos. Minha pressão arterial baixava no máximo quando num ótimo dia até 15 x 10, a rotina dela era 18 x11... minha asma estava me sufocando, eu tinha pesadelos pela falta de ar, meus seios pesavam demais e eu não conseguia dormir de barriga para cima, tinha alucinação de tanto remédio que tomava, chorava dia e noite...
Então operei e tudo isso melhorou...
Mas como já disse antes, tem coisas que não melhoram, coisas que ficam aqui, presas na alma como uma cicatriz para que me recorde dia após dia que fiz uma opção e que vou sempre ter de cuidar disso.
Que  coisas?
O escárnio com que nos olham, o deboche com que nos tratam...
O descaso de quem a gente insistia em querer bem...
A vergonha de entrar numa loja e sair sem que nada servisse.
A tristeza de ser sempre a última pessoa a ser escolhida nos jogos, de ser ignorada, de ser ponto de referência...
A forma odiosa como quem está obeso é tratado pela sociedade.
Doenças do corpo e doenças da alma...
Ninguém acorda um belo dia e diz: vou ser obeso...
Mas a sociedade não sabe disso, ignora, machuca, e a gente além de ter de lidar com as dores físicas lida com as dores espirituais... a alma dói.
E então a gente opera, as dores físicas diminuem, não somem por completo, porque parte de nós já deteriorou por anos de dor, mas as dores da alma, não, essas não curam.
E então vem a vaidade, muitas vezes não vaidade real, mas uma forma de esfregar na cara de quem um dia escarniou que a gente venceu.
A alma ainda dói, lá no fundo a gente ainda trás cada palavra, cada risinho guardado e pronto para ser devolvido... para explodir.
A gente muda tanto por fora que ilude a alma acreditando que somos outras pessoas, mas nós sabemos que não, nós sabemos que a perda de peso não levou a raiva de muitas pessoas e situações que enfrentamos, apenas ficaram dormentes.
A hipocrisia de muitos de dizer: nossa, porque operou, você tinha um rosto tão lindo...
Dançam na nossa mente inúmeras respostas, mas engolimos e seguimos.
Operamos o estômago, mas não a alma...
Operar por vaidade? Não, por sobrevivência, porque sabemos que a morte era eminente e optamos por seguir mais uns anos adiante.
Optamos por ser mutantes pelo resto de nossas vidas em troca de anos a mais de vida. Troca justa...
Não é vaidade: é sobrevivência o nome disso.

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